Grupo de Estudos para Personal Trainer - Ciência no TEF

João Moura
"Professor João Moura nasceu em Cruz Alta (RS) em 1971. Em 1992 ingressou na UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) para seus estudos no Curso de Ed. Física."

       

Variações da Elevação Lateral e Atividade Eletromiográfica

Clique aqui para baixar o artigo

Elevação lateral e frontal consiste na realização de abdução e flexão do ombro no plano frontal e sagital, respectivamente. Estes exercícios são amplamente executados nas salas de musculação quando se tem como objetivo treinar deltoide.

No entanto, é possível, particularmente para a elevação lateral, observar a execução de algumas variações. Ou seja, é muito comum observar a execução com o úmero em rotação externa, interna ou em posição neutra. Ainda também é possível observar a execução com os cotovelos flexionados. A título de curiosidade, a justificativa para execução com rotação externa é aumentar o espaço subacromial e, com isso reduzir a chance de ocorrência de um pinçamento acromial. Mas será que realizar a elevação lateral com diferentes posições do úmero e cotovelo, produz alguma alteração no padrão de atividade eletromiográfica do deltoide?

Portanto, este estudo que compartilhamos agora (Coratella et al., 2020) teve como objetivo analisar a atividade eletromiográfica dos feixes do deltoide, trapézio e peitoral maior ao executar a elevação lateral e frontal e suas variações. 

Como foi feito o estudo?

Desenho experimental:

Os voluntários compareceram três vezes ao laboratório. Na primeira sessão, foram familiarizados com a técnica de cada exercício. Na segunda, a quilagem (teste de 8RM) para cada exercício foi determinada. Na terceira sessão, a atividade eletromiográfica máxima foi mensurada para cada músculo analisado. Após 30 minutos de intervalo, realizaram cada exercício em ordem randomizada. Cada sessão teve intervalo de três dias. 

Quem foram os voluntários?

Selecionou-se 10 fisiculturistas da categoria clássico até 80 kg e 1,70 m, que tinham pelo menos cinco anos de experiência em competições regionais. 

Como foi feito o experimento?

Os voluntários foram submetidos a realizar quatro variações da elevação lateral e uma variação da elevação frontal:

- Elevação Lateral com Rotação Externa (ELRE): realizaram abdução glenoumeral até 90° com o úmero em rotação externa, ou seja, com a palma da mão apontando para frente. O cotovelo teve uma leve flexão ao longo de toda a amplitude de movimento;


- Elevação Lateral com Rotação Interna (ELRI): realizaram abdução glenoumeral até 90° com o úmero em rotação interna, ou seja, com a palma da mão apontando para trás. O cotovelo teve uma leve flexão ao longo de toda a amplitude de movimento;


- Elevação Lateral Neutro (ELN): realizaram abdução glenoumeral até 90° com o úmero em posição neutra, ou seja, com a palma da mão apontando para baixo. O cotovelo teve uma leve flexão ao longo de toda a amplitude de movimento;


- Elevação Lateral com Cotovelo Flexionado (ELCF): realizaram abdução glenoumeral até 90° com o úmero em posição neutra, ou seja, com a palma da mão apontando para baixo. Entretanto, manteve-se o cotovelo com uma flexão de 90° ao longo de toda a amplitude;


- Elevação Frontal (EF): realizaram flexão glenoumeral até 90° com o úmero em posição neutra, ou seja, com a palma da mão apontando para baixo. O cotovelo teve uma leve flexão ao longo de toda a amplitude de movimento.


Um ponto importante a salientar, é que todos os exercícios foram realizados sentados, para evitar a influência de ação de músculos estabilizadores. Além disso, executou-se um série de 6 repetições com uma quilagem que representava 8RM. Cada fase (concêntrica e excêntrica) foi realizada com 2s. 

Quais os músculos analisados?

Durante a execução foi realizado o registro da atividade eletromiográfica do deltoide anterior, medial, posterior, trapézio superior e tríceps cabeça lateral.

E ai quais os resultados?

Deltoide Anterior:

Fase concêntrica: observou-se maior atividade eletromiográfica (RMS) na EF comparado ELRE, ELN, ELRI e ELCF. ELRE mostrou atividade eletromiográfica maior do que ELN, ELRI, ELCF. Ainda ELCF mostrou atividade maior do que ELN e ELRI. 

Fase excêntrica: a atividade na ELRE e ELN foi maior do que na ELRI, EF e ELCF. EF e ELCF teve atividade maior do que a ELRI. 


Deltoide Medial:

Fase concêntrica: atividade eletromiográfica foi significativamente maior para ELN em relação a ELRE, EF e ELCF. Tanto a ELRE e ELRI tiveram atividade maior do que a EF e ELCF. ELCF ainda mostrou atividade maior que a EF. 

Fase excêntrica: a ELRI mostrou atividade maior do que a ELRE, ELN, EF e ELCF. Ambos a ELN e ELCF tiveram atividade maior do que a ELRE, e EF. ELRE mostrou atividade maior do que a EF. 


Deltoide posterior:

Durante ambas as fases a ELRI apresentou atividade eletromiográfica maior em relação a ELRE, ELN, EF e ELCF. Ainda a ELN mostrou maior atividade do que a ELRE, EF e ELCF. 

Fase concêntrica: a ELCF mostrou atividade maior do que ELRE, EF, e a ELRE teve maior do que a EF. 

Fase excêntrica: ELRE e ELCF apresentaram atividade maior do que a EF.


Trapézio superior:

Fase concêntrica: a atividade foi maior para ELRI comparado a ELRE, ELN, EF e ELCF. ELCF teve atividade maior do que a ELRE e EF. Ainda tanto a ELRE e ELN tiveram atividade maior do que a EF. 

Fase excêntrica:  ELRI e ELCF tiveram maior atividade comparado a ELRE, ELN e EF. 


Peitoral maior:

Fase concêntrica: atividade eletromiográfica foi maior para EF comparado com ELRE, ELN, ELRI e ELCF. 

Fase excêntrica: ocorreu uma atividade maior para EF comparado a ELRE, ELN, ELRI e ELCF. 


Tríceps braquial:

Durante a fase concêntrica e excêntrica a atividade eletromiográfica foi maior na ELRI comparado a ELRE, ELN, EF e ELCF. 

Fase concêntrica: ELRE e ELCF mostraram atividade maior do que a ELRE e EF. ELRE teve atividade maior do que a EF. 

Fase excêntrica: ocorreu maior atividade em ELRE, ELN, ELCF em comparação ao EF. 


Resultado resumido

Em resumo durante a fase concêntrica o RMS para deltoide anterior foi maior durante a EF e ELRE. Deltoide medial foi mais ativado na elevação lateral, particularmente nas variações ELN e ELRI. Deltoide posterior teve maior atividade na ELRI comparado a todos os outros. O trapézio superior teve maior atividade durante a ELRI comparado a todos os outros. O peitoral clavicular teve maior atividade durante a EF comparado a todos os outros. Por fim, a cabeça lateral do tríceps foi mais ativa em ELRI comparado aos outros.   Apesar deste padrão de atividade eletromiográfica foi similar na fase excêntrica, o deltoide anterior teve ativação similar em ELRE e ELN e deltoide medial em ELRI comparado a todos os outros. 

Pontos importantes da discussão!!!

Para a ELRE os resultados demonstraram que o deltoide teve uma atividade de 80% anterior, 48% medial e 36% posterior. Já a ELN produziu um padrão de atividade similar entre deltoide anterior e posterior (55 e 52%, respectivamente) porém menor para anterior (36%). Já na ELRI o padrão foi de 85% para posterior, 52% para medial e 35% para anterior. Este comportamento ocorreu em virtude que a rotação interna e externa do úmero gera uma aumento no braço de momento para deltoide posterior e anterior, respectivamente, assim aumentando a atividade deles. 

A atividade eletromiográfica similar do deltoide anterior apresentada em ELRE e ELN, possivelmente ocorreu em virtude da maior necessidade para desacelerar o úmero. Este também pode ter sido a justificativa para maior atividade do deltoide medial na ELRI. 

Já a maior atividade eletromiográfica da cabeça lateral do tríceps na ELRI, pode ter ocorrido em virtude que nesta posição a gravidade tende a flexionar o cotovelo. Assim, maior atividade do tríceps para manter o cotovelo na posição.

Já o trapézio teve maior atividade ELRI em virtude que ao rodar internamento o úmero ocorre também uma elevação e rotação superior da escapula, conduzindo a maior atividade do trapézio.

A menor atividade eletromiográfica em deltoide medial para ELCF em relação as outras variações da elevação lateral, ocorreu em virtude de uma redução no braço e alavanca. Além disso, o aumento na atividade para deltoide anterior, foi em decorrência do movimento ocorrer também no plano sagital. Por fim, em virtude da quilagem ser deslocada anteriormente, ocorreu maior tendência de rotação interno do úmero. Assim, para evitar a ocorrência no deltoide posterior aumentou a atividade.  

Ta e daí? O que eu faço com isso?

Uma primeira aplicação que se pode realizar com esses resultados é que pra produzir uma atividade eletromiográfica maior sobre o deltoide medial, realizar a elevação lateral com o úmero em posição neutra ou em rotação interna pode ser uma estratégia interessante. No entanto, a posição neutra parece ser mais interessante, pois ao rodar internamente o úmero ocorre uma redução de espaço subacromial, o que pode levar a um pinçamento acromial. Ainda pensando em trabalho de deltoide medial, parece ser mais interessante realizar a elevação lateral com os cotovelos quase em extensão total. Além disso, ao executar com os cotovelos quase totalmente estendidos, será possível utilizar uma quilagem menor, produzindo assim uma sobre carga articular menor. 

Já se o objetivo é produzir uma atividade eletromiográfica maior sobre deltoide anterior e peitoral fibras claviculares a execução da elevação frontal é a mais interessante.  Ainda caso o objetivo seja produzir uma atividade maior do deltoide anterior na execução da elevação lateral, talvez seria interessante incluir a ELRE.  


De um passo adiante em
sua carreira!
Grátis
Acesso Imediato


  Voltar para a página do Curso

Depoimentos dos alunos

Voltar ao topo